Saia da Babilônia!

31 de Outubro de 2014

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TEMPLOS: CRISTÃOS OU PAGÃOS?


Acerca dos templos onde se reúnem as comunidades cristãs, há ideias desajustadas que me parece bem enunciar e analisar embora sucintamente.

Há quem confunda o Templo judaico com os templos cristãos, atribuindo a estes a designação de «casas de oração» que, como se pode ler nos evangelhos ( Mateus 2l,12-17; Marcos 11,15-18 ; Lucas 19,46;  João 2,13-16), se referem ao Templo judaico, onde, aliás, Jesus fez tal pronunciamento quando expulsou dele os vendilhões que o profanavam.

Também é costume apelar a um certo tipo de «reverência» nos templos cristãos, usando um texto, em Eclesiastes 5,1: «Guarda o teu pé quando fores à casa de Deus...»  Ora essa casa, no contexto veterotestamentário,  é, certamente, o Templo judaico. Quem aplica hoje esse texto às casas de culto cristão, talvez defenda um culto em que não haja lugar para o convívio entre os participantes, e se pretenda dar mais ênfase a uma espécie de silêncio supersticioso nesse lugar «sagrado», como se ele fosse mais sagrado do que qualquer outro. Seja como for, parece-nos que aquele texto não pode fundamentar essa pretensão.

Outra reminiscência semelhante é o apelo ao dízimo, de forma legalista, como medida de contribuição exigida em igrejas cristãs. O dízimo é uma referência útil mas precária, à luz do Evangelho libertador, o qual valoriza sobretudo a qualidade, a motivação, o amor com que se dá.

Há práticas e atitudes «judaizantes» no cristianismo actual. Estas e outras, de que talvez uma das mais graves seja a ênfase que certas igrejas dão ao Antigo Testamento, baseando nele lições e prédicas, sistematicamente, de tal modo que, por vezes, num culto dito «de pregação do Evangelho», não está presente Evangelho nenhum, nem é anunciado Jesus, o Cristo, a Palavra de Deus viva e vivificadora. Apenas antiguidades éticas, poéticas ou históricas, algumas arrepiantes, mas não a Boa Nova de alegria, de paz, de esperança e de amor. Essas igrejas, por vezes, mais parecem sinagogas do que comunidades cristãs.

Muito grave é, também, criticar-se a assimilação, pelo catolicismo romano, de algumas práticas, móveis e outros objectos do culto pagão, a partir da instauração do Cristianismo como religião do Império, no século IV, como se quem faz essa crítica (refiro-me a certos “evangélicos”), na sua «pureza exemplar» (!!) estivessem isentos e fossem intocáveis nessa matéria. Afinal, desde quando houve templos cristãos? Não foi o próprio templo, globalmente, a principal recuperação material proveniente do paganismo?
Os cristãos primitivos tinham templos? O Templo de Jerusalém era um templo cristão? Obviamente que não. Os cristãos, até ao quarto século, reuniam-se em casas particulares, como podemos verificar em múltiplas passagens, por exemplo em Romanos 16,5 e I Coríntios 16,19. Mais tarde, chegaram a reunir-se em catacumbas, refugiando-se das ferozes perseguições de que foram alvo. Também se juntavam nas sinagogas e no Templo de Jerusalém, mas esses não eram os seus espaços. Tais espaços pertenciam aos judeus. Frequentavam-nos para dar testemunho do Cristo aos israelitas, procurando evangelizá-los.

Os chamados templos evangélicos aí estão hoje, com os seus púlpitos, seus objectos «sacramentais», seus lugares reservados ao «clero», seus patamares diferenciados em honra e dignidade/autoridade... Para que condenar ou censurar o catolicismo romano em aspectos tão semelhantes? Há que assumir os factos, as semelhanças, sem complexos nem hipocrisias. E se o lugar é útil para culto, testemunho, comunhão, serviço ao próximo, tudo bem. Embora devesse restaurar-se a prática das reuniões e celebrações em casas particulares. Seria salutar
des-sacralizar os locais e objectos de culto, dar mais ênfase às comunidades menos formais e mais actuantes, à igreja aberta ao mundo e às suas necessidades integrais, todos os dias da semana e não somente uma ou duas horas aos domingos.

Afinal Deus não habita em templos feitos pelas mãos dos homens (Actos 7,48-50, l7,24). Jesus afirmou categoricamente que o local de adoração não é nem em Jerusalém (Templo judaico) nem em Samaria, nem num monte nem no outro, pois Deus é espírito e o importante é que o adoremos em espírito e em verdade, seja onde for (João 4, 20-24). Quando Jesus expirou na cruz, o véu do Templo rasgou-se de alto a baixo (Marcos 15,38) e, cerca de 40 anos depois, toda a cidade de Jerusalém foi destruída (Lucas 19,43-44), incluindo o próprio Templo, do qual resta  apenas o muro das lamentações, como se sabe.

Templo de Deus é Jesus, disse-o Ele: “Destruam este templo e em três dias o reedificarei!” – referindo-se ao seu corpo. (João 2,19-21). Templos de Deus somos nós: «Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo que habita em vós...?» (I Coríntios 3,16-17; 6,19)

Templos vivos, casas de Deus vivas, glorificando ao Senhor por onde andarem. Isso sim. Esses são os maiores, os mais importantes de todos os templos, no Novo Testamento. Vidas dedicadas ao Senhor, espelhando
o amor do Cristo, manifestando a Sua Obra através de obras, ao serviço a Deus na pessoa do próximo.

Mas quando se vai à igreja, dominicalmente, cumprir apenas um dever religioso, descarregar a consciência, ouvir o sermão e dar o dízimo (nem sempre de coração, às vezes por coação), que cristianismo é esse afinal? E os doentes, e os pobres, e os encarcerados, e os idosos, e as crianças? Pensa-se neles? Dá-se-lhes atenção, carinho, auxílio?

Na última página da Bíblia é dito da Nova Jerusalém (o céu): «nela não vi templo...» (Apocalipse 21,22). Sem comentários.

Fonte: Orlando Caetano - Publicado no Recanto das Letras em 27/08/2006 - Código do texto: T226363